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Hábitos humanos estranhos: O processo do ritual

Ritual é algo que faz parte do processo de socialização humana. É um elemento que existe por milênios e algumas coisas são muito difíceis de desconstruir. Eu realmente não consigo entender como as pessoas conseguem viver a sua vida tendo rituais periódicos. A vida se torna tão sem graça, pois tudo se torna tão previsível. O ritual deve ser um modo para dar segurança no futuro, pois não é necessário ter aquele estresse do que fazer. 

Um lugar onde os rituais são muito presentes são nas religiões. Todas as religiões de modo geral tem um certo padrão. A Igreja Católica tem um folheto que deve ser seguido e a missa é por base naquilo. As igrejas evangélicas normalmente tem o mesmo padrão de encontros. Não conheço muito de outras manifestações de fé, mas acredito que deve acontecer a mesma coisa. Os fiéis seguem anos e anos os mesmos padrões de música, culto, literatura e vestimentas. Como as pessoas vivem assim e não cansam? Inovar faz parte para a transformação de um novo mundo, me incomoda uma sociedade que não sai do mesmo padrão. 

Não é apenas pessoas religiosas que seguem rituais de tempos em tempos. Pessoas não religiosas também tem esses padrões, principalmente em ações na busca de algo para ter conforto em vida. Sinto que o ritual é o modo da sociedade de sobressair a individualidade. Pela primeira vez, em muitos lugares, as pessoas têm a liberdade de serem quem elas são. O padrão social cada vez mais está sendo confrontado, principalmente na sociedade ocidental. Um exemplo muito forte do poder dos rituais são as sociedades indígenas, que mantiveram tradições por séculos, parecendo que as pessoas de determinada época é a mesma de séculos atrás. 

Há um medo do desconhecido e de uma perda de identidade social. Se aventurar no desconhecido é um pecado para determinadas pessoas. Os mais ameaçados e que tentam de algum modo barrar as mudanças são os líderes dos movimentos que realizam os rituais. Há várias formas de interromper uma mudança. Os exemplos de tentar manter o status padrão é através de uma ditadura, pressão psicológica, legislação e toda forma de manter o controle. 

O lado bom dos rituais é que seus adeptos vão ser pessoas mais parecidas. Seres mais parecidos fazem com que a harmonia social seja maior. Um dos motivos do mundo estar tão conflituoso, pois como cada um segue para o individualismo, a harmonia social se torna mais difícil. Mesmo em uma mesma família, a harmonia social está se tornando difícil, pois cada membro pode ter gostos musicais diferentes, grau de instrução diferentes e conhecimentos diferentes. Uma harmonia social que está sendo construída é pela grande mídia, onde há uma tentativa de tornar todos igualmente burros. A televisão por muito tempo foi uma forma de poder muito abrangente, mas atualmente existem tipos de mídias onde cada um escolhe aquilo o que deseja e acessa quando deseja. A individualidade faz com que os rituais se tornem mais dissipados. O perto se torna longe e o longe se torna perto.

Retrospectiva das músicas e artistas de k-pop de 2016

Quem já está adulto como eu e gosta de k-pop desde a infância ou adolescência, já deve ter percebido algumas mudanças. O conceito em geral das bandas sofreram algumas alterações, isso é natural acontecer com o tempo. Alguns grupos ganharam força, outros caíram e alguns grupos se desfizeram. Já estou me sentindo meio velho, pois agora tem uma nova geração de pessoas que gostam desse estilo de música e me sinto tipo um tio-avô. 

Para mim a perda mais significativa foi 2ne1. As primeiras bandas que conheci e que mais escutei foram 2ne1 e Big Bang. No geral escutava mais os artistas da YG do que da SM. Já contei em outras ocasiões que não conheci a Coreia pelo K-pop, mas sim pelos doramas. As músicas coreanas que escutava eram mais estilo novela. 

Este ano teve outra separação repentina, que foi a 4minute. No fundo, já estava claro que só Hyuna iria se destacar e as outras integrantes iam ser deixadas de mão. Das integrantes de 4minute, gostava mais da Gayoon.

2ne1 poderia ter tido mais anos de carreira. Acredito que a Minzy foi muito precipitada de ter saído do jeito que saiu. No final, a decisão foi para a vida delas. Park Bom é uma pessoa muito sensível. Para alguém trabalhar na mídia, deve-se ter uma condição psicológica boa para suportar as críticas. Sinto que Bom deveria se afastar e cuidar dela um pouco. Dara já tem uma carreira nas Filipinas e CL é uma mulher de contatos. As duas provavelmente que vão se sair melhor daqui em diante. Se Park Bom consegui voltar para a carreira artística vai ser algo muito bom. Minzy é muito nova e ela pode decidir fazer muitos trabalhos, mas não acho que ela vai ter tanto sucesso do mesmo modo como integrante da 2ne1. 

Jessica deu uma volta por cima e conseguiu se firmar na mídia. Algo muito difícil para alguém que trabalhou na principal empresa do ramo. Não tenho nada contra ela, mas não gostei dela ter sido a apresentadora de uma programa que gosto muito: Beauty Bible Best. O programa ficou muito sem graça e monótono. Os outros três apresentadores eram muito mais animados e divertidos. Sinceramente não me agradou os estilos de músicas dela, mas muitos fãs amaram e apoiam esta nova fase. Acho o estilo da Jessica muito elegante e bem moderno, admiro o trabalho dela mais para esse ramo. 

Versão 2015 

Versão 2016

2016 foi o primeiro ano que escutei BTS pela primeira vez. Aqui no Espírito Santo tem bastante k-poppers que gostam de BTS, até teve uma excursão para ir em São Paulo para vê-los. Não sou fã da banda, entretanto sou apaixonado por Blood Sweat & Tears. Ouço esta música praticamente todos os dias desde que descobri a sua existência. 

Em 2016 comecei a escutar mais as músicas da SM. Uma que gosto bastante é Monster de Exo. Foi lançado o projeto NCT (Neo Culture Technology). Provavelmente os artistas na NCT vão ser os novos sucessos dessa nova geração do K-pop. As músicas são bem jovens e bem conceituais. Vejo esses novos grupos como uma forma de internacionalizar mais a SM. Sinto que a YG está na frente nesse aspecto.

Para substituir 2ne1, a YG promoveu com sucesso o grupo Black Pink. No começo estava resistente em escutar elas, principalmente pelo fato delas serem a 2ne1 2.0 para a YG. Mas no final de tudo, cedi e gostei do ritmo. Black Pink tem poucas músicas e estou aguardando os próximos lançamentos. 

 Um ótimo 2017 para todos!

Como é ser cotista e fanatismo nas universidades federais

O fato de ser cotista

Tem muita polêmica do fato de alguém ser cotista em algum órgão público. Muitas pessoas acreditam em uma falsa igualdade entre as pessoas e que todos tem a mesma chance. Mas de fato, isso não é  a verdade na realidade do Brasil. Prova disso são diferenças de renda entre as pessoas de uma mesma sala, e como quem tem renda baixa normalmente tem a chance de ter uma vida mais conturbada. 

Muitos cotistas vão ser os primeiros da família a terem uma graduação. Enquanto existem famílias que por gerações todos possuem um nível de qualificação. A diferença entre um cotista e um estudante sem contas já começa no período de inscrição na universidade. Por serem de categorias diferentes, todo o processo burocrático são em períodos diferentes. Os não cotistas tiveram recepção no momento da inscrição por alunos do curso com um trote. Odeio trotes e não sou favor da ideia, mas isso mostra que, para alguns alunos não valem a pena gastar energia com os cotistas. Os cotistas de um monte de cursos tiveram que ficar espremidos em um corredor pequeno esperando ser chamado para entregar todos os documentos. Enquanto isso não ocorreu para os outros alunos. 

No meu curso, durante a graduação não senti preconceito por ser cotista. Claro que deve ter alguns que devem ficar incomodados, mas ninguém nunca se expressou. Eu faço Economia, no departamento as pessoas são muito mais cautelosas ao falar alguma coisa. Um professor do curso foi acusado de racismo por dizer que prefere um médico branco a um negro. No final de tudo, ele entrou na justiça e conseguiu voltar a dar aulas. No grupo do Facebook da Economia da UFES, alguns alunos falaram que ele reprova alguém só pelo fato da pessoa ser negra. Não posso afirmar com veracidade esta informação, pois não conheço as pessoas que postaram os relatos e não tive aula com ele. O mais engraçado que os professores que dizem que querem justiça social, ficaram omissos. 

Na minha turma, muitos dos meus colegas já viajaram pelo mundo e moram nos melhores bairros da cidade. No extremo, com certeza que deve ter gente que nem saiu do Espírito Santo. Sinceramente me sinto muito envergonhado. De fato, me sinto inferior por não ter condições de ter uma viagem e conhecer outras culturas. 

Muita gente tem um mito enquanto os estudantes cotistas. Acham que são privilegiados na graduação e a vida é mais fácil. Mas a verdade não é bem assim. Dependendo do curso a pessoa pode sofrer preconceitos, principalmente os considerados de elite. O processo de avaliação em uma sala é igual para todo mundo. A nota para passar para todo mundo é sete. Para algumas pessoas continuar estudando pode ser uma tarefa bem dura e árdua. As universidade federais não têm mensalidades, mas em compensação, alguns professores podem pedir materiais caros que são necessários no momento da aula. Os estudantes cotistas recebem um auxílio, mas esse é muito pequeno, comparado com o custo de vida que temos em Vitória.

Alguns professores acham que os alunos têm o mesmo padrão de vida deles, muitos não enxergam que parte dos alunos são de família pobre. Um professor meu disse uma vez que, o dinheiro que gastamos em balada e para sair a noite com amigos, é o valor que dava para adquirir o livro que deveríamos usar. Acontece que, parte dos alunos da sala não vão em balada, pois são de famílias religiosas. Ele acredita que todo mundo da sala faz o que ele faz. Vai para balada e gasta uns duzentos reais em bebidas alcoólicas. 

O fato de termos uma biblioteca e poder pegar os livros que precisamos é muito bom. Antes era limitado aos cotistas pegar três livros, número insuficiente, agora podemos pegar cinco livros. Ter os livros disponíveis faz economizar em cópias. Para me livrar desse problema de sempre ter um gasto com impressão e cópias, usei o dinheiro que ganhei como monitor e comprei um notebook. Desse modo leio os livros em PDF. Isso vai me fazer economizar muito durante meu período de graduação. Alguns livros podem custar mais de R$200 ou R$300, imagina o quanto que teria que pagar se comprasse todos os materiais sugeridos. 

Outro gasto que é minimizado é a alimentação. Temos o restaurante universitário. Que tem o valor de R$1,50 para quem tem uma renda familiar maior, R$0,75 para uma renda familiar média (a minha categoria) e de “graça” para quem tem uma renda familiar baixa. Como fico praticamente o dia todo na universidade, para minimizar mais os gastos, na maiorias das vezes levo um lanche para não ter que gastar na cantina no meu centro. Os salgados e os lanches são muito caros, é muito desproporcional do que é vendido em padarias, nos terminais de ônibus ou na rua. Muitos dizem que é por causa do aluguel, mas na universidade, tem outra cantina que é mais barata e o aluguel deve ser o mesmo. Por coincidência aonde possuem o curso de direito (é o mesmo centro que estudo) e engenharia são os lugares mais caros para poder comer.

Fico impressionado como esta cantina está sempre lotada e as pessoas não se importam em pagar o valor cobrado. Aí que percebo em que tipo de ambiente em que estou. Para mim os valores são caros, para quem tem uma renda mais elevada, aquele preço não é nada. Se fosse o dobro do preço, teria pessoas que ainda não se sentiriam incomodadas em pagar. Sempre levo meu pacote de biscoitos e uma garrafa com água e sento com meus amigos no intervalo em algum banquinho. Quando estou com muita fome e não tenho nada para comer, tenho que ir na cantina garimpar umas coisas mais baratas. Já peguei a minha bicicleta e fui no Walmart ou outro supermercado para comprar algo para comer. Pois, com o mesmo valor poderia comprar muito mais coisa. 

Se eu conseguir melhorar de vida, pelo menos vou saber a valorizar mais o dinheiro. Dinheiro é algo que deve ser direcionado de maneira correta. Principalmente quem tem pouco. Não adianta querer seguir o fluxo e tentar ter o mesmo padrão de colegas. Para um pobre isso pode significar um sacrifício muito grande. Uma pessoa mais rica gastar certa quantidade de dinheiro pode significar nada. 

Ser cotista pode significa ter certas dificuldades, mas devemos lutar para termos uma etapa mais próspera. 

O fanatismo religioso, étnico e político das universidades

Depois de certo tempo, percebe-se que há alguns grupos dentro da Universidade. Nesses grupos possuem certas pessoas fanáticas. Em outro relato falei um pouco dos meus tempos que morava em república. Um dos integrantes era católico e só conversam com que era católico. Na GOU (grupo de oração universitária) que é da Igreja Católica tem pessoas maravilhosas. Infelizmente alguns integrantes são mais extremos. Tem gente que acha que só por não pertencer a determinada organização, os demais são impuros e pecadores. Não entendo muito sobre a mente das pessoas. Acredito que o mais importante é fazer o bem e entregar amor o próximo.

Será que é difícil enxergar que é muito mesquinho apenas conversar com alguém que só compactuam com suas ideologias? Acho muito triste este tipo de atitude. Na Economia conheço gente da GOU muito simpática e muito tranquilas. É meio perturbador ficar perto de pessoas extremistas. Eu sei que tem seguidores de religiões evangélicas e de origem africana com a mesma atitude. 

Outra coisa que me incomoda muito é o fato de certos integrantes de grupos de identidade negra, ver uma pessoa de outra etnia como “inimigo”. Muita gente está com a mente parada no tempo e ainda veem o mundo na época da escravidão. Sim, é muito importante resgatar a identidade afrodescendente no Brasil. A universidade é um espaço para desconstruir preconceitos e construir conhecimentos. Mas tem pessoas que ficam muito extremistas e isso não é bom. Tem gente que só quer fazer laços de amizades mais fortes apenas com outras pessoas negras. E veem os descendentes dos caucasianos como opressores. As pessoas têm que se ver mais como iguais e não tentar criar novas barreiras. Há muito racismo e não precisamos ter novos tipos de racismo. 

Do outro lado, muitas pessoas veem uma pessoa negra como inferior. Há uma falsa ideia que os negros na universidade entraram por cotas. O preconceito faz com que a sociedade ligue o cor da pessoa com o status social. Isso deve ser desmitificado. Cor não define o caráter, nível de renda e intelectualidade de ninguém. O fato da pessoa ser negra não significa que ela é pobre e que tem cotas. Sinto uma pressão em que os negros devem saber sobre cultura africana. Não é pelo fato da pessoa ser afrodescente que ela automaticamente tem que ser interessada sobre a África.

Não tem com voltar no tempo. O mundo é do jeito que é e devemos trabalhar em cima da realidade do que nos é posta. Não adianta viver odiando pessoas que nem vivas estão mais. 

Outro fanatismo bastante comum é o político. Acredito que este tipo de fanatismo é o mais grave e presente no meu cotidiano. Não sei como é em outros lugares, mas acredito que deve ser o mesmo. A situação é tão grave, que certa opinião pode definir a permanência ou saída de alguém dentro da universidade. A maioria do cunho ideológico das universidades é de esquerda. Há certos professores que não aceitam opiniões contrárias. Sinto certa pressão ao falar alguma coisa. Eu prefiro manter o silêncio e ficar na minha. 

Na minha mente, certas discussões não fazem sentido. Para mim esta barreira de ideias de esquerda e direita não tem fronteiras muito claras. Acredito que o equilíbrio é algo muito importante. A história mostra que o extremismo nunca é a melhor escolha. 

Quero que as pessoas enxerguem que vivemos no capitalismo e que devemos moldar a realidade a partir disso. Não tem como desconstruir este sistema da noite pro dia. Muita gente culpa o capitalismo por todos os maus do mundo. A verdade é que, antes do capitalismo já existia pobreza e muitos problemas. O socialismo não resolveu nada, apenas transferiu a elite, da burguesia para os integrantes dos partidos centralizados. Um mundo igualitário é uma tarefa muito árdua. 

É muito estranho alguns professores e alunos que defendem ideias socialistas e que pregam igualdade social. Muitas dessas pessoas não fazem ideia do que é pobreza. Acredito que a maioria nunca nem foi em um bairro pobre. Não consigo entender a lógica de pregar algo que não se vive. Não faz sentido só ficar usando marcas caras, símbolos do capitalismo e dizer que é de esquerda! O(a) professor(a) tem alunos pobres, e não enxerga isso. Acreditam que toda a miséria estão do lado de fora da universidade. Muita gente não percebeu que os tempos mudaram e que agora há vários tipos de alunos com rendas diferentes. 

Se a pessoa é tão envolvida assim em ajudar a humanidade, por que a maioria não vai ajudar um asilo ou uma creche carente? Para mim o lado mais obscuro no fanatismo político é a censura. A censura existe e ele é real. Nunca ouse discordar da maioria dos professores. A maioria deles são bastante autoritários. E isso me incomoda bastante. Quem estuda em instituições mais heterodoxas e tiver opiniões diferentes deve sofrer do mesmo mal. Não entendo o porquê que falam tão mal da mídia, se eles mesmos censuram várias coisas. 

Vivemos em uma democracia e todos devem ter o direito de seguir o que acredita ser a verdade. Para combater a ignorância é necessário estudar e ter provas daquilo do que quer provar. Viver de achismos não é saudável para uma sociedade. Se for opinar sobre algo tenha fontes e argumentos. Não seja uma repassador ambulante de informações, muitas vezes estas notícias passadas por correntes não são verídicas. 

Vou deixar alguns materiais de referências sobre estas discussões:

Professor racista demitido da UFES

Transição de república para morar sozinho

Uma reportagem da BBC com alunos cotistas: A professora não gostava  de pobre.

 

A herança do sucesso e do fracasso

Com o tempo percebi que como que o contexto familiar interfere muito no sucesso e no fracasso de um indivíduo. Claro que cada um faz a sua própria história e que não se pode justificar o que fazemos por livre arbítrio nas costas de outras pessoas. Entretanto, o contexto a nossa volta faz com que parte da nossa personalidade seja moldada.

Parece que os ciclos são difíceis de quebrar e no decorrer dos séculos há uma tendência de que as famílias mais poderosas sejam as mesmas. Isso é um movimento que ocorre ao redor do mundo. Acredito que conheci muita gente com um padrão de vida melhor que o meu, então por muito tempo me senti inferiorizado. Talvez a diferença do meu padrão de vida com as pessoas que convivi em geral não seja muito diferente do meu. Mas sempre focamos a atenção naqueles que mais se destacam. Tudo a nossa volta só parece ser inspiração de sucesso. Ligamos a televisão, só tem pessoas famosas e muitos milionários. Abrimos uma revista, modelos com roupas caras e artistas com corpos perfeitos em suas mansões. Na internet, fotos lindas de lugares magníficos e de gente que vive maravilhosamente bem.

Para os pobres, que são a maioria. Se tem uma rotina de ônibus lotados e de bairros violentos. Se acontece algo em um bairro de classe alta, toda a polícia de mobiliza para poder chegar no local. Se um pobre trabalhador morre, ele é simplesmente esquecido e apagado no tempo. Para se sentir menos inferiorizados, vários pobres adquirem produtos considerados de classe alta para se sentirem mais poderosos e com mais status social. Muita gente com um emprego ruim e um trabalho ruim gasta praticamente toda renda que tem e que não tem para adquirir produtos e estar em certos lugares. Acontece que essas pessoas não têm condição financeira para ter esses tipos de ação.

O processo de herança fica mais evidente no momento de se ter um filho. Uma pessoa rica normalmente tem a vida resolvida no momento de ter um bebê. Mesmo se não tiver, pela família ter capital, ela consegue uma margem de manobra para poder se estabilizar. Claro que isso não acontece em todos os casos. Estou fazendo uma análise em um contexto mais macro. Uma pessoa pobre em muitos casos tem filhos mais cedo, a maioria não tem estrutura familiar e a educação muitas vezes não é priorizada. A vida da pessoa pobre se torna mais difícil com um bebê. A pobreza não permite a acumulação de capital, o pouco que a pessoa podia ter guardado, ela provavelmente gastou com um celular caro.

Vamos usar um exemplo de duas pessoas fictícias. Marion que é uma menina rica e Joana que é uma menina pobre. Marion depois de ter crescido pouco, foi para um colégio particular, que provavelmente a maioria dos estudantes têm um contexto financeiro parecido. A mãe de Joana teve que ficar horas na fila, no pior dos casos, ela já dormiu na fila para conseguir uma vaga na creche perto de casa para conseguir ir trabalhar. A creche pública tinha professores mal remunerados e desmotivados em dar aula. Alguns colegas da sala de Joana eram violentos, por vir de famílias que acontecia vários abusos domésticos. Ela aprendeu que deveria revidar para não ficar apanhando desses colegas.

Quando saíram da creche e foram para o ensino fundamental. Marion já tinha noção dos números e já conseguia ler alguma coisa. Joana, coitada, entrou no primeiro ano do fundamental sem saber praticamente nada. Com o passar dos anos, Marion estava preparada para o ensino médio com um conteúdo sólido, já Joana ia passar muitas dificuldades. No ensino médio, Marion foi para umas melhores escolas que tinha boa preparação para os exames das melhores universidades. No ensino médio, Joana foi para uma escola mediana, já não tinha tantos problemas que nem o fundamental, pois a maioria das piores pessoas não conseguiram sair de lá. Marion nunca viu uma amiga sua grávida, já a Joana já teve três amigas que ficaram grávidas. Na vida adulta, Marion virou engenheira e conseguiu um ótimo emprego em uma multinacional, quando já estava com a vida estabilizada decidiu ter filhos. Joana até que conseguiu entrar em faculdade, mas ela era ruim, pois não se preparou e não foi preparada para os exames. Joana infelizmente não conseguiu pagar a mensalidade e teve que parar, nesse meio tempo engravidou e por isso não teve como voltar os estudos.

Marion e Joana continuaram o clico das mães e da ascendência da família.

Um pouco da minha história

Minha mãe veio de um contexto familiar conturbado. Minha avó engravidou antes de casar, algo considerado um escândalo na época. Depois que ela teve a minha mãe, casou com um policial. Acredito que para não atrapalhar o casamento, minha avó fez ela morar com minha bisavó. Na pré-adolescência, minha avó foi buscar ela para morar com o padrasto e os irmãos. Minha mãe foi tipo uma escrava da casa, tendo que fazer de tudo.

Por ter vivido esse contexto, o correto seria que, ela depois de adulta, ter saído daquela situação, ir trabalhar em um lugar distante daquelas pessoas, juntar um dinheiro, fazer um curso superior ou um técnico e seguir em frente. Acontece que, a vida foi totalmente diferente. Ela encontrou um viciado em drogas (álcool sendo mais específico), engravidou com vinte anos apenas tendo ensino médio, acreditou nas promessas dele, foi enganada, teve que criar um filho sozinha (no caso, eu). O ciclo de pobreza não foi quebrado. Para piorar a situação, minha mãe é muito passiva na vida e deixa as pessoas a dominá-la com certa facilidade. Criou um filho sozinha e não entrou com um processo na justiça para pedir pensão! Tinha medo do meu pai ser preso, mesmo tendo sido maltratada (síndrome de Estocolmo). Até hoje, não sei porque motivo, ela não quis seguir com o processo. Quando estiver formado e trabalhando, com certeza, foi ver o que posso fazer na justiça.

Minha mãe por muito tempo, era uma pessoa raivosa e queria jogar o estresse dela em cima de mim. Mas sempre fui de personalidade forte, e não deixo ninguém montar em cima de mim. Sempre questionei ela, como conseguia viver daquele modo, sendo enganada pelas pessoas e aceitar certas situações.

Agora falando um pouco de mim. Na creche eu fui para uma escola particular, não era um colégio de elite, era daqueles mais em conta, se tratando de educação paga. Quando criança, minha mãe sempre tinha dois empregos e fazia alguns serviços por fora quando podia. Nessa creche já comecei a minha infância me sentido inferiorizado. Nunca comprei nada na cantina da escola, sempre levava meu pão com alguma coisa com muita vergonha de comer perto dos outros. Todo mundo tinha coisas legais e brinquedos legais. O destaque da minha sala, era uma garota que tinha um apontador que brilhava quando se apontava um lápis. No recreio nunca conversei com ninguém e ninguém conversava comigo. As pessoas se socializam na cantina ou brincando com aqueles brinquedos considerados os melhores da época. Como nunca tinha nada para oferecer, então ficava sozinho sentado na escada. Até hoje tenho dificuldade de socialização. Fazendo graduação de Economia, agora entendo mais sobre o processo social e como o dinheiro é importante para as relações humanas no capitalismo. E isso acontece desse cedo. Se eu tivesse algo para oferecer naquela época, provavelmente seria mais confiante e desse modo, toda a história em diante poderia ter sido diferente.

Depois desse período de creche, fui para uma escola pública no ensino fundamental. Morria de raiva por estar naquela turma. Muitos dos meus colegas não sabiam ler ou escrever, e tudo o que a professora passava eram coisas que eu já sabia. Poderia ter até pulado esse ano. Foi outro ano que praticamente não falei com ninguém. Aprendi que a socialização masculina se dava falando sobre futebol. E eu não sabia nada sobre futebol e não jogava futebol.

Quando ia para o segundo ano, aconteceu outra coisa chata. Minha mãe conheceu outro cara que tinha acabado de se separar, este homem não era de boa índole, mas como ela boba deixou se enganar de novo. Pouco tempo depois ela ficou grávida de novo. Mais um passo para afundar a nossa vida na pobreza. A situação estava tão difícil, que fui morar com a tia dela de novo. Quando era mais pequeno, tinha ido morar com minha tia-avó quando minha mãe saiu de Minas para arrumar um emprego no Espírito Santo.

Este momento da minha vida, em questão de contexto familiar, foi melhor. Pois tinha contato com mais gente. Por conta disso, me senti mais a vontade. A casa que morei era muito grande e com uma estrutura boa, era muito bom estar lá dentro. Mas na escola nada melhorei socialmente. Fui para a escola e me colocaram na turma das pessoas mais atrasadas. A professora era muito legal e simpática e sentia que ela se importava comigo. Depois de algumas semanas me mudaram de turma. Aquela nova professora, foi a pior professora que tive em toda a minha vida. Ela era muito mau humorada e tratava bem apenas dois alunos, talvez eram os mais riquinhos da sala. Tinha um menino muito encapetado na minha sala, ele tentava puxar assunto comigo, mas sempre o ignorei, sabia que não era o tipo de gente que deveria ter amizade. Ele uma vez me perturbando, a professora teve coragem de me chamar a atenção! Ela disse que nós dois estávamos atrapalhando a aula dela. Nessa escola não consegui nenhuma amizade também. Tinha um menino que adorava bater nas pessoas e ele tinha o cabelo muito parecido com o meu, cheio e todo cacheado. Uma vez ele bateu em um menino e este menino não parava de chorar. Ele chamou a coordenadora e falou que eu que tinha batido nele! A mulher estava toda descontrolada gritando comigo, puxou o meu braço com força falando para eu pedir desculpa, eu disse que não tinha feito nada, no final de tudo tive que pedir desculpa por algo que não tinha feito para a mulher me soltar. Falei para professora o que tinha ocorrido, ela não fez nada. Na cabeça dela, ela ter pensado: “Dane-se”. Se isso tivesse acontecido com a cabeça que tenho hoje, tinha colocado a boca no trombone e ter gritado para o mundo. Nesse mesmo ano sofri um acidente no trânsito. E tinha gastado um final de semana para fazer uma história em quadrinhos para a professora, ela pegou a história, rasgou e jogou no lixo.

Depois desse ano fui morar com minha mãe de novo. O cara já tinha largado ela. Nessa época ela estava fazendo faculdade, pois tinha conseguido um financiamento. Uma amiga da faculdade vendo a situação dela, se solidarizou e fomos morar na casa dessa amiga. No terceiro e o quarto ano estudei na mesma escola, foi a primeira vez que fiz amizades. Foram anos muito bons. Infelizmente depois não consegui manter essas amizades, grande parte da minha turma continuou estudando de manhã na outra escola que era de quinto ao nono ano. Implorava para minha mãe para continuar estudando de manhã, pois desse modo poderia continuar com meus amigos. Mas não teve como, pois fui obrigado a levar o meu irmão no colégio, e só tinha vaga a tarde para ele. Aí tinha que buscá-lo e esperar ele sair para irmos para casa. Nesse meio tempo, minha mãe arrumou um emprego melhor e fomos morar em uma kitnet em outro bairro. Infelizmente por causa do tempo, essas amizades que tive foram diluindo.

Mas tinha feito outras duas grandes (falsas) amizades. No final das contas essas pessoas não se importavam muito comigo. Uma pessoa queria me inferiorizar distorcendo as coisas que falava e outro garoto não tenho mais ideia do seu paradeiro. O que considerava o meu melhor amigo (o fofoqueiro manipulador), agora ele é evangélico e acredito que deva ter mudado de personalidade. Tenho ele nas minhas redes sociais, quem sabe se um dia voltamos a falar.

Retirando os problemas de escola, a vida em casa estava melhorando. Estávamos comendo melhor e vivendo mais confortavelmente. Quando finalmente, pensei que em degrau por degrau tudo estava indo para melhor, minha mãe decide voltar com o meu pai, depois de tantos anos. Foram os piores anos da minha vida. O ciclo da pobreza girava com a maior força o possível. Ele fazia vexame na rua, bebia e não deixava ninguém dormir, cada vez estava mais violento. Ele nunca ajudou com um centavo (literalmente) com a minha educação. Minha mãe tem aquele sonho de ter uma família e tal, mas ela nunca foi muito crítica e infelizmente não escolheu as melhores pessoas para conviver depois de tantos anos de sofrimento como “escrava”.

Nesses anos pensei em morar com minha tia-avó e nunca mais voltar a ver a minha mãe. Acredito que na adolescência teria sido a minha melhor opção ter feito isso, teria evitado muito sofrimento na minha vida. Pensei em suicídio e por muito tempo só sabia chorar. Depois de tanto ódio e tristeza, meu desempenho escolar caiu muito e sinto o efeito disso até hoje.

Quando minha mãe viu que meu pai estava ficando violento demais e que a situação ia sair do controle eles decidiram separar (o que aconteceu de fato, foi que ela despachou ele, e ele ficou fazendo chantagem emocional). Quando estava acabando o ensino fundamental, minha mãe tinha passado em um concurso público para uma cidade no interior e viemos morar aqui. Por algum motivo, ele tinha o número aqui de casa. Tivemos uma briga feia aqui em casa por causa disso. Depois que a linha telefônica foi desligada, acredito que ele nunca mais teve contato conosco. Nenhum parente por parte paterna ligou para mim e perguntou como eu estava. Apenas ligava para minha mãe, falando que tinha que dar uma chance para o meu pai e blá blá blá. Ninguém nunca ligou perguntando se eu precisava de um caderno e um lápis.

Agora minha mãe está mais empenhada na igreja e nossa relação melhorou muito. Ela está mais calma e mais sábia, mas ainda não admite muito que discorde dela. Sinto que nunca vamos ter um certo nível de intimidade como muitas mães e filhos que tiveram uma vida mais saudável. Eu e meu irmão é certo que vamos nos afastar, não temos nada haver um com o outro.

Nesse momento estou na universidade. Deus, o Universo, a sorte, não sei no que você acredita, me deu outra chance de sair da pobreza e agora vejo que dádiva que tenho acesso. Vou agarrar esta oportunidade com toda a minha força e não deixá-la escapar. Minha mãe já está reclamando de despesa, pois o que ganho não é suficiente para me manter. Por isso vou adiantar o que der para poder trabalhar e finalmente consegui minha independência total.

Se eu tiver filhos, espero passar uma herança diferente para eles e deixá-los bem longe do meu passado. Não conseguirei dormir fazendo outras pessoas dependentes de mim pagarem por meus erros. Herança para mim é isso, viver de acordo com as ações passadas de outras pessoas. Sou grato pelo trabalho da minha mãe, só não sou grato por algumas atitudes que ela tomou na vida. Odeio o meu pai e desejo a sua morte (sendo totalmente sincero).

Para o próximo texto, quero falar um pouco sobre o que é ser cotista na universidade e sobre o fanatismo de alguns colegas.