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Como é ser cotista e fanatismo nas universidades federais

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O fato de ser cotista

Tem muita polêmica do fato de alguém ser cotista em algum órgão público. Muitas pessoas acreditam em uma falsa igualdade entre as pessoas e que todos tem a mesma chance. Mas de fato, isso não é  a verdade na realidade do Brasil. Prova disso são diferenças de renda entre as pessoas de uma mesma sala, e como quem tem renda baixa normalmente tem a chance de ter uma vida mais conturbada. 

Muitos cotistas vão ser os primeiros da família a terem uma graduação. Enquanto existem famílias que por gerações todos possuem um nível de qualificação. A diferença entre um cotista e um estudante sem contas já começa no período de inscrição na universidade. Por serem de categorias diferentes, todo o processo burocrático são em períodos diferentes. Os não cotistas tiveram recepção no momento da inscrição por alunos do curso com um trote. Odeio trotes e não sou favor da ideia, mas isso mostra que, para alguns alunos não valem a pena gastar energia com os cotistas. Os cotistas de um monte de cursos tiveram que ficar espremidos em um corredor pequeno esperando ser chamado para entregar todos os documentos. Enquanto isso não ocorreu para os outros alunos. 

No meu curso, durante a graduação não senti preconceito por ser cotista. Claro que deve ter alguns que devem ficar incomodados, mas ninguém nunca se expressou. Eu faço Economia, no departamento as pessoas são muito mais cautelosas ao falar alguma coisa. Um professor do curso foi acusado de racismo por dizer que prefere um médico branco a um negro. No final de tudo, ele entrou na justiça e conseguiu voltar a dar aulas. No grupo do Facebook da Economia da UFES, alguns alunos falaram que ele reprova alguém só pelo fato da pessoa ser negra. Não posso afirmar com veracidade esta informação, pois não conheço as pessoas que postaram os relatos e não tive aula com ele. O mais engraçado que os professores que dizem que querem justiça social, ficaram omissos. 

Na minha turma, muitos dos meus colegas já viajaram pelo mundo e moram nos melhores bairros da cidade. No extremo, com certeza que deve ter gente que nem saiu do Espírito Santo. Sinceramente me sinto muito envergonhado. De fato, me sinto inferior por não ter condições de ter uma viagem e conhecer outras culturas. 

Muita gente tem um mito enquanto os estudantes cotistas. Acham que são privilegiados na graduação e a vida é mais fácil. Mas a verdade não é bem assim. Dependendo do curso a pessoa pode sofrer preconceitos, principalmente os considerados de elite. O processo de avaliação em uma sala é igual para todo mundo. A nota para passar para todo mundo é sete. Para algumas pessoas continuar estudando pode ser uma tarefa bem dura e árdua. As universidade federais não têm mensalidades, mas em compensação, alguns professores podem pedir materiais caros que são necessários no momento da aula. Os estudantes cotistas recebem um auxílio, mas esse é muito pequeno, comparado com o custo de vida que temos em Vitória.

Alguns professores acham que os alunos têm o mesmo padrão de vida deles, muitos não enxergam que parte dos alunos são de família pobre. Um professor meu disse uma vez que, o dinheiro que gastamos em balada e para sair a noite com amigos, é o valor que dava para adquirir o livro que deveríamos usar. Acontece que, parte dos alunos da sala não vão em balada, pois são de famílias religiosas. Ele acredita que todo mundo da sala faz o que ele faz. Vai para balada e gasta uns duzentos reais em bebidas alcoólicas. 

O fato de termos uma biblioteca e poder pegar os livros que precisamos é muito bom. Antes era limitado aos cotistas pegar três livros, número insuficiente, agora podemos pegar cinco livros. Ter os livros disponíveis faz economizar em cópias. Para me livrar desse problema de sempre ter um gasto com impressão e cópias, usei o dinheiro que ganhei como monitor e comprei um notebook. Desse modo leio os livros em PDF. Isso vai me fazer economizar muito durante meu período de graduação. Alguns livros podem custar mais de R$200 ou R$300, imagina o quanto que teria que pagar se comprasse todos os materiais sugeridos. 

Outro gasto que é minimizado é a alimentação. Temos o restaurante universitário. Que tem o valor de R$1,50 para quem tem uma renda familiar maior, R$0,75 para uma renda familiar média (a minha categoria) e de “graça” para quem tem uma renda familiar baixa. Como fico praticamente o dia todo na universidade, para minimizar mais os gastos, na maiorias das vezes levo um lanche para não ter que gastar na cantina no meu centro. Os salgados e os lanches são muito caros, é muito desproporcional do que é vendido em padarias, nos terminais de ônibus ou na rua. Muitos dizem que é por causa do aluguel, mas na universidade, tem outra cantina que é mais barata e o aluguel deve ser o mesmo. Por coincidência aonde possuem o curso de direito (é o mesmo centro que estudo) e engenharia são os lugares mais caros para poder comer.

Fico impressionado como esta cantina está sempre lotada e as pessoas não se importam em pagar o valor cobrado. Aí que percebo em que tipo de ambiente em que estou. Para mim os valores são caros, para quem tem uma renda mais elevada, aquele preço não é nada. Se fosse o dobro do preço, teria pessoas que ainda não se sentiriam incomodadas em pagar. Sempre levo meu pacote de biscoitos e uma garrafa com água e sento com meus amigos no intervalo em algum banquinho. Quando estou com muita fome e não tenho nada para comer, tenho que ir na cantina garimpar umas coisas mais baratas. Já peguei a minha bicicleta e fui no Walmart ou outro supermercado para comprar algo para comer. Pois, com o mesmo valor poderia comprar muito mais coisa. 

Se eu conseguir melhorar de vida, pelo menos vou saber a valorizar mais o dinheiro. Dinheiro é algo que deve ser direcionado de maneira correta. Principalmente quem tem pouco. Não adianta querer seguir o fluxo e tentar ter o mesmo padrão de colegas. Para um pobre isso pode significar um sacrifício muito grande. Uma pessoa mais rica gastar certa quantidade de dinheiro pode significar nada. 

Ser cotista pode significa ter certas dificuldades, mas devemos lutar para termos uma etapa mais próspera. 

O fanatismo religioso, étnico e político das universidades

Depois de certo tempo, percebe-se que há alguns grupos dentro da Universidade. Nesses grupos possuem certas pessoas fanáticas. Em outro relato falei um pouco dos meus tempos que morava em república. Um dos integrantes era católico e só conversam com que era católico. Na GOU (grupo de oração universitária) que é da Igreja Católica tem pessoas maravilhosas. Infelizmente alguns integrantes são mais extremos. Tem gente que acha que só por não pertencer a determinada organização, os demais são impuros e pecadores. Não entendo muito sobre a mente das pessoas. Acredito que o mais importante é fazer o bem e entregar amor o próximo.

Será que é difícil enxergar que é muito mesquinho apenas conversar com alguém que só compactuam com suas ideologias? Acho muito triste este tipo de atitude. Na Economia conheço gente da GOU muito simpática e muito tranquilas. É meio perturbador ficar perto de pessoas extremistas. Eu sei que tem seguidores de religiões evangélicas e de origem africana com a mesma atitude. 

Outra coisa que me incomoda muito é o fato de certos integrantes de grupos de identidade negra, ver uma pessoa de outra etnia como “inimigo”. Muita gente está com a mente parada no tempo e ainda veem o mundo na época da escravidão. Sim, é muito importante resgatar a identidade afrodescendente no Brasil. A universidade é um espaço para desconstruir preconceitos e construir conhecimentos. Mas tem pessoas que ficam muito extremistas e isso não é bom. Tem gente que só quer fazer laços de amizades mais fortes apenas com outras pessoas negras. E veem os descendentes dos caucasianos como opressores. As pessoas têm que se ver mais como iguais e não tentar criar novas barreiras. Há muito racismo e não precisamos ter novos tipos de racismo. 

Do outro lado, muitas pessoas veem uma pessoa negra como inferior. Há uma falsa ideia que os negros na universidade entraram por cotas. O preconceito faz com que a sociedade ligue o cor da pessoa com o status social. Isso deve ser desmitificado. Cor não define o caráter, nível de renda e intelectualidade de ninguém. O fato da pessoa ser negra não significa que ela é pobre e que tem cotas. Sinto uma pressão em que os negros devem saber sobre cultura africana. Não é pelo fato da pessoa ser afrodescente que ela automaticamente tem que ser interessada sobre a África.

Não tem com voltar no tempo. O mundo é do jeito que é e devemos trabalhar em cima da realidade do que nos é posta. Não adianta viver odiando pessoas que nem vivas estão mais. 

Outro fanatismo bastante comum é o político. Acredito que este tipo de fanatismo é o mais grave e presente no meu cotidiano. Não sei como é em outros lugares, mas acredito que deve ser o mesmo. A situação é tão grave, que certa opinião pode definir a permanência ou saída de alguém dentro da universidade. A maioria do cunho ideológico das universidades é de esquerda. Há certos professores que não aceitam opiniões contrárias. Sinto certa pressão ao falar alguma coisa. Eu prefiro manter o silêncio e ficar na minha. 

Na minha mente, certas discussões não fazem sentido. Para mim esta barreira de ideias de esquerda e direita não tem fronteiras muito claras. Acredito que o equilíbrio é algo muito importante. A história mostra que o extremismo nunca é a melhor escolha. 

Quero que as pessoas enxerguem que vivemos no capitalismo e que devemos moldar a realidade a partir disso. Não tem como desconstruir este sistema da noite pro dia. Muita gente culpa o capitalismo por todos os maus do mundo. A verdade é que, antes do capitalismo já existia pobreza e muitos problemas. O socialismo não resolveu nada, apenas transferiu a elite, da burguesia para os integrantes dos partidos centralizados. Um mundo igualitário é uma tarefa muito árdua. 

É muito estranho alguns professores e alunos que defendem ideias socialistas e que pregam igualdade social. Muitas dessas pessoas não fazem ideia do que é pobreza. Acredito que a maioria nunca nem foi em um bairro pobre. Não consigo entender a lógica de pregar algo que não se vive. Não faz sentido só ficar usando marcas caras, símbolos do capitalismo e dizer que é de esquerda! O(a) professor(a) tem alunos pobres, e não enxerga isso. Acreditam que toda a miséria estão do lado de fora da universidade. Muita gente não percebeu que os tempos mudaram e que agora há vários tipos de alunos com rendas diferentes. 

Se a pessoa é tão envolvida assim em ajudar a humanidade, por que a maioria não vai ajudar um asilo ou uma creche carente? Para mim o lado mais obscuro no fanatismo político é a censura. A censura existe e ele é real. Nunca ouse discordar da maioria dos professores. A maioria deles são bastante autoritários. E isso me incomoda bastante. Quem estuda em instituições mais heterodoxas e tiver opiniões diferentes deve sofrer do mesmo mal. Não entendo o porquê que falam tão mal da mídia, se eles mesmos censuram várias coisas. 

Vivemos em uma democracia e todos devem ter o direito de seguir o que acredita ser a verdade. Para combater a ignorância é necessário estudar e ter provas daquilo do que quer provar. Viver de achismos não é saudável para uma sociedade. Se for opinar sobre algo tenha fontes e argumentos. Não seja uma repassador ambulante de informações, muitas vezes estas notícias passadas por correntes não são verídicas. 

Vou deixar alguns materiais de referências sobre estas discussões:

Professor racista demitido da UFES

Transição de república para morar sozinho

Uma reportagem da BBC com alunos cotistas: A professora não gostava  de pobre.

 

Ramon Cristian

Estudo Ciências Econômicas na UFES. Sou apaixonado pela cultura asiática. Pretendo ensinar, mas sem deixar o espírito empreendedor de lado. Quero me especializar na área financeira ou desenvolvimento econômico. Sou fascinado por todos os temas que mostram a expressão humana, como arte, literatura, cultura e moda.